Wednesday, April 25, 2007

Pretérito do Presente Imperfeito

O que fazer quando jogamos a caixinha fora? Aquele pequeno baú secreto. Cheio de fotos amarelas, cartas antigas, contas de bar, bilhetes de cinema, documentos inválidos, letras de música e mais um bocado de velharias. Fragmento do passado, pedaços da historia, enfim, chame do que quiser. Está tudo no lixo agora, ex-namoradas, ex-amigos, ex-colegas, ex-tudo. Não me dei o trabalho de por fogo. Pronto, estou novo-denovo.

Sinto-me leve - Acendo um cigarro - Um pouco vazio talvez. Não agüento e corro no lixo. Pego uma foto e a saudade finca uma agulha no meu peito e o sangue jorra dos meus olhos e as lágrimas borram a fotografia. O estranho é que o que mais sinto falta não é das pessoas ou dos objetos. Lembro do cheiro e do sabor com muito prazer, mas o que me traz alegria é a recordação do meu estado de espírito. Da energia vibrante, do tesão, da força e da confiança em mim, - uma vodka ia bem – em tudo.

Reviro o lixo. Esta tudo espalhado pelo chão. Resgatei um CD antigo e agora danço ao som orquestral da minha memória. Bebi demais. Acabo de cair em cima de uma carta. Como pude acreditar nisso? Fiquei com vontade de ligar e falar umas verdades. Quem você pensa que é? Outro cigarro. Junto tudo de novo.

Agora vai. Na privada não tem jeito. Descarga. Puta que pariu. Entupiu. Descarga denovo. O jeito é dançar mais um pouco no chão inundado do banheiro. Um brinde aos velhos tempos. Tim-Tim meu amigo. Como você foi ficar tão velho? Onde você arrumou esta mulher? Esqueci, você não bebe mais.Bebo eu. Tudo ensopado, fica mais fácil. Descarga denovo.

Uma foto. Uma única. Três, cinco, sete, nove descargas. Ela insiste em não ir pro esgoto junto com as outras. Justo esta porra? Tinha que ser. Tive medo de olhar para aquela antes. E girando na privada esta maldita foto tirada de uma polaroid, naquele maravilhoso dia de sol, às duas horas e trinta e seis minutos da tarde do ano de 1971, na cidade de Bom Sucesso do Sul, não deixa eu me livrar do pretérito do presente imperfeito.

Aumento o som. Pego a foto na privada. Danço a dois, dois pra lá e dois pra cá. Já sei seu perfume, não precisa me falar. Se você soubesse o quanto eu te amo. Se você soubesse sua vadia, não tinha feito o que fez. Piranha, puxou a mãe. A culpa foi minha, quem mandou eu me meter com você, sabia desde o começo. Que saudade meu amor. Mas eu não posso te perdoar. Não depois de tudo. Por fogo é mesmo a solução. Pego o álcool.

O que fazer quando jogamos a caixinha fora? Arrumamos outra vazia.

Vou sair. Comprar vodka e cigarros.

2 Comments:

Little Soul said...
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Little Soul said...

Antigamente era usuária das velhas caixas com fotografias antigas, mas hoje prefiro ver as fotos do presente que me fazem lembrar do grande amor da minha vida...VOCÊ