Wednesday, December 23, 2009

MENSAGEM DE NATAL DO BOM VELHINHO


Monday, October 26, 2009

WebLove 2.0 - II Metalinguagem

E por mais que eu busque inspiração em outros temas - diga-se aqui que pesquisei em matérias, conversas de bar, Google, etc - O assunto “você” ainda é o que consegue espremer alguma palavra que possa constar aqui. Mesmo que “você” nem desconfie, os devaneios sobre a sua existência ainda conseguem trazer uma gota de euforia no coração e nos dedos para digitar e exercitar o que talvez possa ser chamado de literatura. Não que seja um sacrifício esta atividade da escrita, mas confesso que deixar o blog as traças me causa sim um desconforto. Se for assim, melhor fechar a conta e comprar um caderninho. Mas continuo aqui, respirando com o nariz para fora do mar de tarefas, compromissos e nadando com os pés e mãos amarrados pela preguiça. Mas lembro de “você” e sonho com as vidas que vivemos juntos, a viagens que faremos e o suspiro que acabo dar para que a coisa toda comece a fluir. Um livro poderia ser escrito, um longa-metragem e um disco inteiro de amor poderiam ser produzidos com os fragmentos conhecidos a seu respeito. Basta olhar pra tua foto para que um argumento de filme comece a ser construído.

Mas a própria literatura não é o exercício de inventar vidas?

Tanto para quem escreve, quanto para o leitor, o romance serve acima de tudo para experimentarmos outras realidades. Usamos as palavras como veículo de fuga da nossa rotina miserável. E maravilhosamente livre, podemos escolher nossos destinos.

Pois não podemos selecionar nossos livros e blogs? E a cada novo texto escrito, não temos um zilhão de possibilidades de palavras? Mas me diga você, o amor também não passa de livres projeções sobre alguém? Como posso amar uma pessoa que nem sequer conheço?

E o que dizer do amor a primeira vista?

Projeções instantâneas sobre o objeto amado. E não duvide da velocidade do nosso processador cerebral. Em menos de 1 minuto somos capazes de viver uma década com outra pessoa. Você olha e no instante seguinte está disposto a trabalhar a vida inteira num emprego de merda para fazê-la(o) feliz. E quando partimos para a sedução, o ato em si, os trejeitos, os olhares são meros jogos de palavras. Combinações simbólicas que tem o objetivo de colocar em prática, tudo aquilo antes imaginado.

E não seria justamente isso, a construção de um texto?

Mas no campo da liberdade é que a literatura leva a grande vantagem. Podemos facilmente deixar de ler ou apagar um texto, basta guardar o livro ou usar a borracha. Ao contrário, o amor cria um emaranhado de complicações e tensões, já que suas expectativas não dependem mais só de você. Na literatura, its Just me baby. Por isso o amor por “você”, apesar de parecer uma mentira demente, é sincero. É justo. Sem troco ou recompensa. Um amor livre, sem rimas ou regras. Sem chaves. Todas as portas abertas.

hellfrick

Tuesday, September 01, 2009

WebLove 2.0

Você tocou minha alma e encheu meu peito de inspiração. Primeiro com suas palavras sobre o amor e aquela coisa toda a respeito de Paris. Depois foram aquelas fotos borradas e coloridas, cheias de luzes, copos e cigarros. Eu sempre me imaginava como o fotógrafo. Eu batia a foto e você corria pra ver na tela da máquina. Quando achava boa, sorria e me beijava. Falava que eu “devia ser profissional”. É assim que você faz. Pelo menos é assim que eu penso.

Eu posso dizer sim que te conheço. Sei das tuas coisas. Não consigo falar como está seu cabelo hoje, mas sei o que se passa. Eu leio o que você escreve. Eu já ouvi suas músicas. Mapeie tudo sobre você e me apaixonei pela sua mente. Eu apaixono pela mente das pessoas. Eu desconfio como deve ser seu escritório, cheio de gente descolada como você. Todos te adoram e trazem presente da Benedito Calixto sempre que vão lá. Deixam na mesa, com um post-it colado “achei a sua cara”. Nos meus sonhos você sempre agradece com um abraço e diz que não precisava. No fim do expediente todos vão pra aquele barzinho na General Jardim do lado da Escola de Arquitetura. É meu bar preferido. Tem sempre uma banda de Jazz lá. Pode ser que eu tenha te visto algum dia.

Seus amigos são ótimos. Eu poderia ser da mesma turma. Poderia fazer um almoço no domingo e convidar todos eles. A gente faria uma vaquinha e compraria um frango assado e várias caixas de cerveja. E depois do almoço a gente veria um filme que eu comprei naquela barraquinha da Augusta. Eu ofereço um baseado, mas seu amigo tem haxixe. No fim da tarde todo mundo foi embora e ficamos no sofá cochilando até o Fantástico. Você provavelmente acordaria de mau humor e diria que precisa de mais espaço e que eu estou te sufocando. A gente brigaria e faria as pazes transando debaixo do chuveiro. As vezes eu durmo pensando como é o cheiro do seu cabelo molhado. Tem dias que acordo com a certeza que esteve aqui.

As vezes penso que eu poderia te passar um e-mail ou um post. Mas pra você seria melhor uma carta. Escrita com sinceridade, com dor, cheia de referências de livros que eu sei que você leu. Acontece que eu tenho medo de te conhecer de verdade. Medo de você ser uma pessoa comum. Uma pessoa chata como eu. Que tem emprego, salário, roupa-suja, dentista. Prefiro imaginar você sem estas coisas. É melhor lembrar de você indo pra praia de fusca. Talvez você tenha um fusca.

Mas o que me apavora de verdade é a possibilidade de você ser assim. Como eu penso que seja. Você me arrastaria para o inferno com tanta velocidade que a turbulência seria insuportável. O Choque térmico transformaria a realidade em cinzas, em fragmentos da dor mais pura que existe. Eu seria jogado no oceano à noite. E por mais que eu pedisse você nunca jogaria o salva-vidas. Você não é do tipo que salva-vidas. Como eu sei? Eu invento que sei.

hellfrick

Thursday, August 20, 2009

Se o Papa Deixar




No inverno de 2007 eu e o Madruga decidimos participar de um festival de cinema, cujo o tema era o casamento. Naquela época o Papa tinha acabado de declarar que o divórcio era uma praga e que os "descasados" não iriam entrar no reino dos céus, ou coisa assim. O resultado foi 01 semana de trabalho no meu apartamento (cenário) sem poder lavar a louça. Anos difíceis aqueles na Brigadeiro Luiz Antônio...

Roteiro e Direção: Flávio Reis e Diego Rezende
Ator: Flávio Reis
Ano: 2007
Produção e Finalização: LaGracia Filmes

Tuesday, June 30, 2009

Epifanias - Maracatu

- Hola.
- Olá.
- Por favor los documentos.
- Sim.
- Su linterna no funciona.
- O que? Yo no ablo espanhol. Do you speak english?
- Su cartera está perdiendo usted.
- Dooo youuu s p e a k...
- Puedes decirme lo que está haciendo esta señora y en el Cusco con fusca verde?

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E o que me restava era só agarrar naquela ilusão de felicidade, num emprego e no bar. Abraçar com toda força a falta de rumo e plumo. Esbaldar com a preguiça atrofiante daqueles dias frios de maio. Era tudo o que me sobrava, migalhas de aventura e uma saudade de tudo aquilo que nunca haveria de acontecer. É meu amigo, dias vazios assim fica difícil até para os pulmões se enxerem. E essa tosse que não me larga...

Mas nunca duvide do caos meu caro leitor. Períodos de tamanho equilíbrio vêm acompanhados de grandes movimentos sísmicos. Terremotos na realidade estavam por vir. Eu podia cheirar, já senti este fedor antes. O gosto da morte novamente na minha boca. Será que é medo? Ou é só uma ardência no meu peito.

E o terremoto começou com uma pequena vibração, do meu celular, que eu nem lembrava mais que tinha. 9212-3696. “Alô?” “Você não vai vir não?” Todos meus neurônios trabalharam em menos de 01 segundo para responder a voz do outro lado que era engano e que ele tinha ligado errado. Afinal, eu não conhecia a voz, o número muito menos e pela música de fundo me parecia que o sujeito do outro lado da linha já esperava outro sujeito numa festa ou seja lá o que seria. Mas aparentemente forças ocultas dentro do meu sistema nervoso fizeram com que a resposta fosse outra, uma pergunta: “Onde?” “Anota aí...” Como dizia o porteiro careca do turno da noite: “é nos detalhes que o diabo se diverte”.

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Taí uma pergunta muito oportuna: o que que eu estou fazendo aqui? Ok, representar o escritório numa feira de construção ou uma palestra sobre os rumos da arquitetura, vá lá. Mas em festinha hypada deste cara. Tem dó né. Puta que pariu com a Claudinha me pedir pra eu comparecer. “Vai lá, faz um social e volta pra gente terminar o projeto”. Voltar pro escritório? Ela deve estar é muito loca. Eu despencar até este fim do mundo, enfrentar a marginal lotada e ainda voltar e trabalhar. Eu vou é pra casa desmaiar na cama. Mas a merda é que eu preciso pelo menos trocar um cartão com o dono da casa. E como é que eu vou me apresentar para aquela bixa afetada? Oi eu sou fulana, trabalho com a Claudinha e... você tem um cartão? O cara vai me achar uma desmiolada. Capaz até de chamar um segurança. Bom, vou tomar um champs. Aproveitar que é de graça. Puta, pegar um taça e não tem ninguém pra brindar é foda. Aliás, não ter ninguém pra dar hoje também é foda viu. Mas também com tanta mudança assim fica difícil começar até um namorico. Muda de cidade, sai do emprego, muda de casa, volta pra cidade, arruma outro emprego, hotel, apartamento novo, sai do emprego denovo, volta pro primeiro. Isso tudo em 02 anos é um pouco demais, até pra mim. Isso sem contar o mês em Londres. Fica difícil mesmo alguma coisa grudar neste corpo magrelo e nesta alma escorregadia. “Moço quero outra taça”. Nossa, não é que uma tacinha já me deixou meio tontinha. Vou comer um canaps.

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O endereço indicava um casarão antigo, cheio de detalhes nouveau. Janelas e portas de vidro mostravam que imóvel tinha sofrido uma reforma eu diria um tanto quanto pop-modernista. Paro ou não paro? A indecisão é um dos piores defeitos do homem. E este defeito eu carregava desde a maternidade. Segundo minha mãe era porque, na hora do nascimento o médico ficou pensando em qual lado da bunda bater pra eu chorar. Acabou não batendo em nenhum lado e eu também não chorei. Ficou por isso mesmo. Médico filho da puta, porque não bateu logo na minha bunda e resolvido o problema. Agora estou na terceira volta no quarteirão pra decidir se fico ou não nesta festa.

Um fusca verde me chamou a atenção na porta. Fuscas me chamam atenção. No jardim tinha uma daquelas vacas coloridas de acrílico que estão por todo lado. Uma vaca de headphones.

Mais uma volta no quarteirão e uma vaga apareceu. Logo na frente do azeitona verde. Era assim que chamávamos o fusca verde do meu avô. Pensei logo ser um sinal esta vaga. Meu avô sumiu de casa quando eu tinha 16 anos. Sinceramente o desaparecimento do velho safado não tinha me causado tanta tristeza, tanto quanto pelo fato dele ter fugido com o carro, que segundo minha mãe seria meu um dia. Fiquei sem avô e sem carro. Não segurei a risada com o pensamento que talvez tenha sido ele o responsável pela ligação e quem sabe o carro era dele mesmo.

“Puta que pariu”. Bater no farol do fusca não estava nos meu planos. Será que eu fujo? Melhor procurar o dono e avisar.


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Nossa, o banheiro tá punk. Agora que virou moda este lance de banheiro misto, ir mijar virou uma aventura. Antigamente existia um pacto selado entre nós mulheres. O banheiro sempre foi território neutro, mesmo se sua pior inimiga desse uma cagadinha, você nunca falaria para alguém. Agora, fica difícil até soltar um pum porque o banheiro ta lotado de gatinhos. E o engraçado é que nestes banheiros as sapatas vivem se pegando, como se antes elas não mijassem juntas.

Caralho. O que este cara ta fazendo aqui? Gente, eu tô tremendo. “Garçom, me traz outra taça.” Será que vou lá? Segura tua onda. Você viu este sujeito uma vez só e ainda por cima no carnaval. Ah, mas porra, eu to aqui sozinha mesmo. Num custa nada. Não, melhor eu esperar. Se ele me ver é sinal que lembra. Preciso fumar. “Garçom, tem fogo?”. Puta que pariu, nunca vi garçom sem isqueiro. Eu vou lá. “Oi, por gentileza, tem fogo? Obrigado.”

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Bom, pelo menos tem muita gente bonita e até que interessante. Não posso reclamar da recepção. Tem Whisky para um caminhão de gente. O jeito é beber e relaxar, afinal eu já vim aqui e fiz minha parte. O resto é esperar a ordem das caosas. Senti alguém me cutucando e uma voz que não me era estranha.

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- “Tenho sim.”
- “Você lembra de mim? Carnaval, Olinda, Maracatu...?”

Claro que eu lembrava. Senti um soco na barriga quando as imagens voltaram na memória. Eu duvidava se aquele dia tinha realmente existido. Aquele calor nordestino misturado com vodka e ecstasy transformaram a quarta-feira de cinzas em um dia completamente onírico. Desconfiei de tudo que aconteceu naquele carnaval de 2004, e confesso que naquela noite senti uma certa satisfação de ter chegado vivo no hotel em Recife. Cinco anos já se passaram e eu podia sentir o gosto daquele beijo.

- “Claro que lembro. Desculpa, só não lembro do nome.”

Putz, ele não lembra nem do nome. Que merda. Será que eu falei? Quem nos apresentou mesmo? Nossa, ninguém. Fui pegar uma cerveja e lembro de um cara muito doido dizendo que eu tinha mudado a vida dele. E disparou a falar sem parar. Falando e dançando como um mamolengo na batida dos tambores. Achei aquilo muito engraçado.

- “Imagina, não tem problema. Faz cinco anos também né.”

Faz cinco anos, desde que dei meu último suspiro de liberdade. Depois daquele carnaval, a vida foi uma sequência interminável de sub-empregos em agências de publicidade, compromissos casuais e atividades completamente incompatíveis com tudo o que eu tinha planejado.

- “Aposto que você também não lembra do meu?”

Lembrar como. Depois de tanto cabrobró na cabeça eu consigo lembrar apenas que nós dois, aos beijos, entrando em um daqueles becos do centro de Olinda. A coisa chegou a tal ponto que a gente parecia coisa só, tropeçando nas calçadas.

- “Nossa, fiquei com vergonha agora. Não lembro mesmo.”

Vergonha, definitivamente nós não tivemos quando trepamos como cães naquela rua sem saída. Atrás de uma Kombi, com uma peruca brilhante vermelha, bêbado eu era um homem livre. Nem o cheiro de urina e o medo de ser assaltado, diminuíram a intensidade do ato.

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Conversamos amenidades por horas. Por mais que todas as células do meu corpo estivessem conspirando para carregá-la a força para algum lugar eu fiquei ali, reparando em cada detalhe do seu rosto. Do jeito de falar e arregalar os olhos quando queria exaltar algo. Eu queria levar ela embora. Mas levar pra onde? Pra minha casa? O que eu faço com minha mulher? Pra casa dela? Será que é casada? Motel? Acho que eu nem sei onde tem um motel aqui em São Paulo. Talvez um hotel mesmo. Quem sabe o Formula 1 da consolação.

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Eu não parei de falar nenhum minuto. Não deixei o cara falar. Por que ele não me para de olhar. Será que eu to com titica no nariz? Pô, mas ele não vai me chamar pra casa dele? Sei lá, eu toda me oferecendo e o cara não fala nada. Eu bem que namoraria um cara desses viu. Lavava até as cuecas se fosse preciso. Vai meu filho, me chama pra sair daqui.

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- Você quer sair daqui?
- Claro, aqui ta muito barulho.
- Podemos ir pra sua casa?
- Pior que não viu. Eu to morando com umas meninas e hoje é dia de festinha lá em casa. Deve estar uma confusão dos infernos. Vamo pra sua?
- Pra minha? Acho que não. Sei lá, estava pensando que talvez pudéssemos fazer uma viagem.
- Sério? Agora?
- É, eu estava imaginando algo como o Peru.
- Pára. Você ta dando pala.
- Faz tempo que eu não falo tão sério.
- Cara, mas ir assim, sem malas, sem avisar, sem despedir?
- Por que não?

Monday, June 01, 2009

o retorno de Saturno

Você descobre que está sozinho. Tão logo desconfia que está adulto.

hellfrick

Tuesday, April 07, 2009

Changes

Primeiro filme da série "Vídeo-Poemas". Expressões audiovisuais do próprio blog.


video

Wednesday, April 01, 2009

Se eu pudesse

Se eu pudesse escolher
Outra forma de ser
Eu seria você

Thursday, March 19, 2009

Tá foda encontrar inspiração nesta porra

O confronto foi inevitável com o maldito vizinho. O filho da puta ficou parado no corredor em frente à minha porta insultando todos os adjetivos possíveis do nosso idioma tupiniquim. Eu nunca lembrava o nome do infeliz, chamava sempre de “o cara do 103”. Me parecia ser legal, vivia metido no apartamento com umas gatinhas meios hippies, acendendo incenso e cantando uns mantras. De vez em quando chegava o doce aroma da canabis na minha janela e certo dia quase toquei a campainha do maluco pra propor uma troca: meio litro de conhaque e dois bifes de boi em troca de um fininho. Por fim acabei desistindo do plano. Nestes tempos de crise macro-econômica-mundial é melhor ter guardado este tipo de coisa. Depois de quase meia hora eu resolvi abrir a porta e enfrentar o maconherinho. Nunca achei que um cara deste tipo fosse capaz de surtar, ainda mais às 3 da manhã. Nesta altura até a branquela do 201, que toma trocentos comprimidos para dormir já devia estar frenética. Tanta irritação só porque eu arremessei agora a pouco a maquina de escrever pela janela, que esbarrou, vamos dizer, de leve na persiana dele. Estava destrancando a porta para tentar, quem sabe dar uns golpes, voltei atrás. Este pessoal que faz Yoga acaba ficando meio forte. Sei Lá, quem sabe o cara conhece aqueles jeitos de assassinar alguém só com dois dedos. Quem sabe até com um.

Será que pode dar certo se eu for lá fora e tentar explicar meus motivos? Será que ele vai entender se eu disser que eu, de jeito nenhum, de forma alguma, consigo encontrar inspiração. Que por mais que eu procure nos livros, jornais velhos, garrafas de conhaque não consigo escrever uma linha sequer que preste. Uma amiga disse que é saudade de San Pablo. Outro me lembrou que a certa idade a coisa complica mesmo, que lá pelos 30 e poucos, ou você está de um lado ou fica do outro. Mesmo sem saber muito bem que lados são estes, é bem provável que eu fique mesmo em cima do muro. Mas a melhor tese mesmo é do fotógrafo junkie que vive fotografando putas no centro da cidade. Segundo ele, esta cidade da qual eu resolvi muito inexplicavelmente morar não tem cheiro e que coisas sem cheiro não tem alma. É bem verdade que desde que mudei para estes lados a coisa anda pra lá de preta. É verdade também que eu ando passando tempo demais trancado em casa. Sem os cabróns, minhas perambulações na madrugada estão absolutamente inativas.

Talvez seja necessário sair mesmo para procurar a tal inspiración. Mas preciso sair agora. Eu tenho que achá-la. Pode ser que inevitavelmente ela venha, mas não dá mais pra esperar. Ainda preciso ultrapassar meu vizinho que há 15 minutos está aparentemente tentando derrubar a porta para provavelmente me agredir. Pensei em pegar uma faca e dar um susto. Mas e se ele conseguir pegar a faca? Morres esfaqueado hoje não está nos meus planos (se lá fosse um revolver). E não é que foi a barata que caminhava em cima da TV que me deu a idéia?! Abri a porta espirrando aquele Detefon (mata tudo, até o bicho cabeludo) mais fedorento na cara do safado. Tá certo que todas as super baratas moradoras da minha casa, já nem espirram com o spray, mas pro fungador de incenso, a história é outra. Saí do prédio ele ainda estava gritando com a mão no olho. “Você não fecha o olho pra fazer Yoga? Vamos ver se consegue ficar ceguinho por um tempo.” Dei boas risadas no caminho para a estação. Achei por bem tomar um docinho antes de começar a procurar.

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Achei estranho não ter absolutamente ninguém na estação. Nenhum guarda noturno, mendigo, pivete. Vazio. Pra falar a verdade nem o vento estava por lá. Pulei a catraca (tudo tem seu lado bom) muito desconfiado de que não passaria trem algum. Por um instante achei que tinha ido pra outro lugar, sei lá, errado o caminho. Fiz as contas pra saber ser era feriado. Será que eu fiquei tempo demais em casa e esta porra nem funciona mais. Estes pensamentos foram embora quando eu vi o farol do trem se aproximando. Não estava rápido como de costume, e o painel eletrônico que indica o destino estava confuso, tipo embaralhando as letras. Muita surpresa eu tive quando vi que não tinha nenhum operador. Caralho, mas que porra é essa? A coisa começou a ficar meio estranha agora: meus pés estão gelados e meu saco está pegando fogo. Aquele velho sentimento de desconfiança começou a tomar conta de mim, quando as portas do vagão se abriram. Cabrero do jeito que eu estava, claro que eu não entrei. Fiquei uns 15 minutos em pé olhando para a porra do metrô que não ia embora. Ficava olhando para mim, com cara de convite. Eu andava de um lado para o outro. Comecei a gritar: “O que você quer”. Pode ser um sinal, pensei. Alguém pode estar querendo me ajudar. Ajudar a encontrá-la. Entrei.

Uma voz de locutora de bingo saiu dos microfones: “dez”. Instintivamente meus olhos buscaram uma cartela que estava no banco ao lado. “Quatro”. Cara, eu vou te dizer, pra você conseguir entender que um sorteio está ocorrendo dentro de um trem de metrô é um caminho muito tortuoso que sua mente precisa percorrer. “Oitenta e dois”. Opa, parece que eu estou com sorte. Sorte que nada, a velocidade do trem aumentou assustadoramente, eliminando qualquer possibilidade de se movimentar no banco. Olhei pela janela e vi outros trens, como se tivessem competindo. Uns ficavam pra trás, outros continuavam no páreo do jeito que dava. Visualizei um imenso e brilhante globo laranja. Parecia uma meleca gigante e o trem em rota de colisão. Nesta altura do campeonato eu não via mais vestígios de cidade ou de qualquer coisa. Era tudo preto em volta. Como uma pedra que mergulha no mar, nós (o trem + eu) adentra na imensidão laranja. O Baque não foi fácil. A pressão foi tanta que acabei desmaiando.

Acordei me sentindo um bebê. Chorei quando alguém bateu três na minha bunda. Indignado com aquilo tudo me veio o pensamento: ta foda encontrar inspiração nesta porra.

Hellfick

Wednesday, March 04, 2009

Leminski é foda nº2

Quem não sabe, no fundo, amor é invenção do coração da mulher, que ela tenta vender para o primeiro que aparecer e o seguinte, e o seguinte, e o seguinte, e assim por diante até aquela cena de sangue num bar da Avenida São João, que só vem para provar, de uma vez por todas, que alguém e ninguém não são iguais, e dali saem para lamber o sangue de suas patas, meditando a próxima vingança.

Leminski

Leminski é foda - nº 1

"assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós"


Leminski

Saturday, January 31, 2009

Hellfrick's Wake

E agora, o que resta? Apenas o vazio e esta incapacidade de dormir.
E o que isso tem a ver com a morte? Eu sei que tem. Ela está na espreita, jogando iscas. Balizando meus passos, direcionando o caminho.
Mas a escolha foi sua, não? Mais uma armadilha da maldita. Agora o chão está desmoronando e falta muito pouco pro nada.
O que você pensa em fazer daqui pra frente? Gostaria muito dormir.
Eu não tenho culpa disso, ok? Seria injusto te culpar Insônia. Aliás, seria mais fácil,não é o que todos fazem?
Onde você vai agora? O caminho está escuro e como eu disse, já não tenho muitos lugares pra pisar.
Queria muito te ajudar. Impossível, ninguém pode. Só eu consigo iluminar o trajeto. Preciso encontrar a vela sagrada.
Por que você não procura o Sol? Ele pode ter planos pra você. Todos têm planos pra gente. Querem que façamos o que eles querem.
Então, quais são os seus planos? Vou tentar dormir. Preciso muito morrer pra amanhã.


Hellfrick