Thursday, September 22, 2011

Terça-Feira


E me pego outra vez pensando no fim. No fim de tudo que diz respeito a mim. Uma imensa vontade de desistir. Resetar. O caos está sempre a espreita, escondido no dia-a-dia, na rotina massacrante destes dias fúteis. Tento encontrar algum alento escrevendo este texto sem nexo pra enganar, pra fugir. Ansiedade é isso, é querer acabar pra começar e acabar denovo. Um eterno fim, onde o início é mero coadjuvante.

Sento mais uma vez na única mesa desse café – livraria – lanchonete. Penso no absurdo que é este tipo de lugar que simplesmente é tudo e nada ao mesmo tempo. Penso em você. Queria te ligar e dizer que tinha razão. Minha vida é frágil e no fundo eu não passo de um ser imaturo e fraco. Um idiota sensível. Um sujeito completamente despreparado para a vida. Eu queria telefonar e te chamar para dar uma volta na paulista, mas já não sou seu amigo. Nem sequer moro mais em São Paulo. Quem sabe você pudesse dizer que me avisou. Falar na minha cara, gritar como costumava fazer. Eu queria te encontrar pra mostrar que meu plano deu errado. O sonho foi retalhado e não há imaginação que resista aos métodos destrutivos de uma vida adulto-moderna.

Me viro em direção ao balcão para pedir outro café e os olhos dela acidentalmente encontram os meus. A velha sensação denovo. Os olhos claros, a pele extremamente branca e os cabelos ruivos criam um contraste curioso, completamente fora do nosso contexto latino americano dos trópicos. O suor na testa e o crachá da “firma” pendurado no pescoço são a ponte que liga ela ao mundo real. Seria difícil acreditar na humanidade desta mulher. Deus, ela é linda.

Ela senta e pede um cinzeiro. Dá um longo trago no cigarro e seu olhar agora assume um aspecto cansado. Como se estivesse de saco cheio de esperar por uma reação minha. Nosso encontro acontece nesse lugar todas as terças, que é o único dia que me sobra para sentar e ler alguma coisa na hora do almoço. Nunca trocamos uma palavra. Um amor construído no silencio. Um silêncio perturbador, que me faz pensar denovo no fim. Talvez ela seja a morte, que vai me matar e acabar com essa maldita ansiedade e me fazer nascer denovo.  Ela apaga o cigarro, se levanta e vai embora. Eu nada faço. Apenas penso na próxima terça.

Hellfrick

2 Comments:

Julia Moysés said...

Surpresa boa o teu blog, Diego

Julia Moysés said...
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